Rico Vasconcelos http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs Fri, 19 Jul 2019 07:00:46 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Nova vacina contra o HIV entrará em fase de estudos na Europa e Américas http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/nova-vacina-contra-o-hiv-entrara-em-fase-de-estudos-na-europa-e-americas/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/nova-vacina-contra-o-hiv-entrara-em-fase-de-estudos-na-europa-e-americas/#respond Fri, 19 Jul 2019 07:00:46 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=509

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De todos os modelos de controle de doenças infecciosas, a utilização de vacinas é considerada o sonho perfeito. Isso porque, com uma campanha de vacinação bem estruturada e a produção de anticorpos protetores contra um determinado vírus ou bactéria por toda uma população, é possível erradicar uma doença. No entanto, uma das partes mais difíceis dessa história é o desenvolvimento de uma vacina que seja satisfatoriamente eficaz e segura.

Esse tem sido um dos principais desafios que enfrentamos na história da luta contra o HIV, mas estamos prestes a ver uma mudança acontecer.

Muito já se investiu em estudo, tempo de trabalho e recursos para o desenvolvimento de uma vacina capaz de proteger as pessoas do HIV, para enfim reduzir o número de novos casos registrados da infecção anualmente em todo o mundo. Porém, na melhor de todas as vacinas testadas até hoje, o resultado obtido foi apenas a modesta redução em 31% na incidência de HIV entre os vacinados.

Todas as demais candidatas a vacinas contra HIV ou não tiveram influência no risco de aquisição do vírus ou, o que é ainda pior, aumentaram de maneira equivocada a chance dos indivíduos vacinados se infectarem com o vírus.

Durante a última década foi então criada a HIV Vaccine Trials Network (HVTN) – que pode ser traduzido para a Rede de Pesquisas de Vacinas contra HIV. Essa é uma rede colaborativa internacional de pesquisadores especialistas tanto da área de vacinas quanto de HIV, sediada em Seattle, nos EUA. Ela tem sido responsável por todos os importantes avanços nas pesquisas sobre o tema.

Essa semana a HVTN anunciou o lançamento de um novo estudo que pretende revolucionar a prevenção do HIV com vacinas. O estudo chamado Mosaico será iniciado ainda em 2019 nos EUA, e futuramente expandido para o Brasil, Argentina, México, Peru, Itália, Polônia e Espanha. Nele será testada uma vacina experimental que, em estudos com macacos, já demonstrou proteção contra a infecção em cerca de 2 terços dos vacinados.

A nova vacina contem imunógenos de várias cepas virais com o objetivo de induzir proteção contra os diferentes tipos de HIV circulantes no planeta. Ela será aplicada em homens cisgênero gays e bissexuais e em travestis/mulheres trans, grupos populacionais mais vulnerabilizados à epidemia de HIV.

O Mosaico pretende recrutar 3.800 participantes com idade entre 18 e 60 anos que receberão todo o pacote de prevenção atualmente disponível, além das doses da vacina. Metade deles receberá a aplicação da vacina experimental e a outra metade receberá placebo.

Essa vacina já está sendo utilizada desde 2016 no estudo Imkobodo, que atualmente acompanha 2.600 mulheres de 18 a 35 anos de idade recrutadas em 5 países da África Subsaariana. Os resultados iniciais desse estudo são esperados para 2021.

Uma vacina que proteja do HIV é muito esperada desde a década de 1980. Mesmo que ela não garanta uma proteção de 100%, ainda poderá ser utilizada como ferramenta adicional dentro do cardápio da Prevenção Combinada, juntamente com o uso do preservativo, da PrEP e da PEP. Com mais possibilidades de prevenção estaremos cada vez mais próximos do controle da epidemia de HIV.

Se você se interessa sobre o assunto, fique atento pois logo mais se iniciará o trabalho de recrutamento de participantes no Brasil.

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Série retrata sem sensacionalismo a vida de uma pessoa que vive com HIV http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/07/05/serie-retrata-sem-sensacionalismo-a-vida-de-uma-pessoa-que-vive-com-hiv/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/07/05/serie-retrata-sem-sensacionalismo-a-vida-de-uma-pessoa-que-vive-com-hiv/#respond Fri, 05 Jul 2019 07:00:00 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=503

Jen Richards e Daniela Vega em cena de “Crônicas de San Francisco” | Divulgação/IMDb

As produções artísticas, como filmes, peças de teatro, novelas e séries de televisão, exercem um importante papel na formação do imaginário da população mundial sobre diversos assuntos. Muitas pessoas têm até mesmo seu primeiro contato com determinados temas através dessas obras e, assim, a maneira como eles são apresentados é decisiva na formação de suas opiniões e posicionamentos sobre aqueles assuntos.

Imaginem se em todos os filmes policiais, na cena de perseguição, o mocinho levasse um tiro do bandido e morresse tentando fazer o bem pro planeta? Se em todas as novelas os padres fossem pedófilos? Ou ainda, se em todas as séries de tribunal o juiz fosse corrupto e parcial? A opinião pública certamente seria formada de maneira equivocada sobre esses assuntos.

Ao longo da minha prática médica, eu pude perceber que, quando o assunto é infecção por HIV, frequentemente as pessoas usam como referência produções emblemáticas com esse tema. E o que me chama a atenção é o fato de serem quase sempre referências do período mais trágico da história dessa epidemia, quando não se tinham disponíveis os meios para tratar a infecção, o que fazia com que as histórias terminassem invariavelmente com sofrimento e morte.

A lista das referências campeãs de audiência é grande, mas cito como exemplo o premiado Filadélfia, de 1993. Nesse filme, Tom Hanks ganhou o Oscar de melhor ator protagonizando Andrew Beckett, um advogado gay que é demitido quando seus chefes descobrem que estava com Aids. O caso vai parar no tribunal e a sentença do juiz determina que Andrew receba uma indenização de 5 milhões de dólares. Mas o que todos lembram é que, mesmo tendo ganhado na justiça, no final do filme o personagem morre em decorrência da Aids.

Da década de 1990 pra cá, muita coisa mudou dentro do cuidado disponível para prevenção e tratamento do HIV, sendo possível hoje uma pessoa viver com HIV tendo saúde por toda a sua vida, sem nenhum risco de transmissão do seu vírus para suas parcerias. Entretanto, essa nova realidade é pouco representada nas produções midiáticas, e as referências utilizadas para essa infecção continuam sendo as de histórias catastróficas das décadas passadas.

Uma série lançada pelo Netflix na semana do orgulho LGBT chegou para mudar esse paradigma. Crônicas de San Francisco é a continuação de uma série que foi ao ar na televisão na década de 1990 e conta a história de uma comunidade que gira em torno de uma pensão administrada por uma mulher trans em San Francisco, nos EUA.

Nessa nova temporada, já nos minutos iniciais do primeiro episódio, vemos uma cena do sorridente e saudável galã da trama tomando seu comprimido do tratamento antirretroviral. No desenrolar da história, a série nos dá uma verdadeira aula de saúde sexual e prevenção do HIV baseada na autonomia de cada indivíduo. Ninguém sofre por conta do HIV e ele em momento nenhum é motivo de conflito no enredo.

Produções midiáticas como essa têm o enorme potencial de desconstrução dos já históricos estigma, sorofobia e preconceito que soterram a temática do HIV. E essa série faz isso de maneira leve, educativa, despretensiosa e isenta de julgamentos.

Não acho que as histórias vividas no período catastrófico da epidemia de HIV devam ser esquecidas ou escondidas. Ao contrário, cada morte por Aids deve ser lembrada e homenageada. Apenas não devem ser as únicas referências disponíveis.

Uma vez que as referências sobre HIV na mídia se tornam mais fiéis à realidade médica e científica atual, e deixam de buscar audiência por meio da tragédia, estamos dando um importante passo no enfrentamento dessa epidemia, pois podemos enfim construir um imaginário que de fato contribui informando o público sobre sua prevenção e tratamento.

Recomendo que assistam ao Filadélfia e às Crônicas de San Francisco. Nessa ordem.

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Estudo mostra sucesso na prevenção do HIV baseada na autonomia http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/06/28/estudo-mostra-sucesso-na-prevencao-do-hiv-baseada-na-autonomia/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/06/28/estudo-mostra-sucesso-na-prevencao-do-hiv-baseada-na-autonomia/#respond Fri, 28 Jun 2019 07:00:17 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=497

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Ninguém no mundo discorda da ideia de que quanto mais formas de prevenção contra o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) existirem, mais fácil será o controle dessas epidemias.

Diferentes contextos de vida sexual podem precisar de diferentes combinações de estratégias de prevenção. E, se a adesão ao método preventivo é fundamental para o seu sucesso, dar autonomia para cada pessoa escolher, dentro do cardápio de opções de prevenção, aquelas que consegue usar com boa adesão, é o que há de mais moderno e efetivo nesse sentido.

Os profissionais da saúde costumam achar que são eles quem deve escolher as formas de prevenção para seus pacientes, como por exemplo no já bem batido “Use Camisinha”. Entretanto, a história nos mostrou que essa imposição isolada e inflexível não foi capaz de conter até hoje nenhuma IST.

Mas será que “pessoas comuns” são capazes de gerenciar sozinhas a sua prevenção? Os resultados do estudo holandês AMPrEP, publicado esse mês na revista científica Lancet HIV, uma das mais importantes do mundo, mostrou que sim.

Nesse estudo, entre 2015 e 2016, homens gays e pessoas trans de Amsterdam, na Holanda, que tinham critérios de vulnerabilidade ao HIV, como o uso irregular do preservativo nas relações sexuais, foram convidados para participar de um plano diferente de prevenção. A proposta era de um acompanhamento trimestral com o oferecimento gratuito de todo o conjunto disponível de métodos de prevenção, rastreamento e tratamento de ISTs.

Já na entrada, foi dada a opção do uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) tanto na forma de comprimidos diários quanto na chamada Sob Demanda, em que o usuário toma os comprimidos seguindo uma posologia específica antes e depois das relações sexuais apenas. O esquema sob demanda, idealizado para os indivíduos com relações sexuais menos frequentes, ainda se encontra em fase de acúmulo de evidência científica de sua eficácia, sendo recomendado em poucos países do mundo.

Cada participante teve autonomia para decidir qual dos dois esquemas de PrEP usar e também para migrar de um para outro no decorrer do estudo, a depender por exemplo da frequência de suas exposições sexuais.

Dos 367 participantes incluídos, 73% optaram pela PrEP diária e o restante pela PrEP sob demanda. Mais de dois terços dos usuários de PrEP permaneceram no esquema inicial de tomada durante o seguimento, mas quase 20% decidiram trocá-lo por conta de mudanças na vida sexual, sendo que metade desses trocou mais de uma vez o esquema.

O resultado foi uma prevenção invejável. Enquanto não houve nenhum aumento na incidência das outras ISTs, ocorreram apenas 2 casos de infecção por HIV. Os dois entre os usuários da PrEP diária. Em um deles após a interrupção dos comprimidos e, o outro, um dos raríssimos casos de falha de PrEP reportados até hoje entre usuários com boa adesão aos comprimidos.

Cada vez mais os dados nos mostram que se quisermos ter sucesso no controle das ISTs, devemos nos empenhar na humanização e na individualização das ações. Acolher e compreender as demandas de cada pessoa, provendo as informações técnicas necessárias sobre o assunto, traz melhores resultados que julgar e tentar controlar a vida sexual alheia.

Conforme as opções de prevenção disponíveis no cardápio se multiplicam, aumenta a chance de se ter todos os diferentes contextos de vida contemplados. Mas isso de nada vai adiantar se não entendermos o papel da autonomia, porque no fim das contas é cada pessoa que decide o que acontece na sua vida.

 

 

 

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A criminalização da LGBTfobia é um grande passo no controle do HIV http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/06/21/a-criminalizacao-da-lgbtfobia-e-um-grande-passo-no-controle-do-hiv/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/06/21/a-criminalizacao-da-lgbtfobia-e-um-grande-passo-no-controle-do-hiv/#respond Fri, 21 Jun 2019 07:00:31 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=491

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Há 1 ano, publiquei aqui nessa coluna um texto que escrevi junto com o Carué Contreiras explicando, de maneira bem didática, como fatores sociais influenciam na disseminação do HIV na população brasileira.

Agora, às vésperas da maior Parada do Orgulho LGBT do Brasil, volto ao assunto para discutir o impacto positivo que a recente decisão do Supremo Tribunal Federal, de equiparar a LGBTfobia ao crime de racismo, traz para o enfrentamento do HIV/Aids no Brasil.

Muito mais que o sexo sem camisinha, as diferentes formas de exclusão social, como a homo e transfobia, são responsáveis pelo padrão de crescimento dos casos dessa infecção em todo mundo.

Com elas, os grupos acometidos são privados do acesso a uma saúde sexual integral, o que inclui todo o contínuo de cuidado que vai desde a educação sexual na juventude e prevenção combinada amplamente disponível, até a testagem, diagnóstico e tratamento das pessoas que vivem com HIV.

Gays e trans que ainda assim insistem em tentar acessar o sistema público de saúde brasileiro, que é estruturado para atender a população cisgênera e heterossexual, são frequentemente vítimas da discriminação e de atendimento inadequado pelos profissionais da saúde.

Com uma LGBTfobia institucionalizada no país, não é permitido que aconteça nem mesmo a construção de um debate público sobre a qualidade da vida sexual dessas pessoas, o que rapidamente costuma ser desqualificado pelo senso comum, encerrando-se a questão com o habitual julgamento, culpa e alguma frase automática do tipo “É só usar camisinha”.

Como resultado disso tudo, enquanto 0,4% da população cisgênera heterossexual vive com HIV, e esse número se encontra estável na última década, a prevalência da infecção entre homens gays e bissexuais foi de 12 para 18% entre 2009 e 2016, segundo dados do Ministério da Saúde. Entre as mulheres trans e travestis, já passa de 35%.

Só para se ter uma ideia, o número de mortes entre gays em decorrência da Aids todos os anos no Brasil é cerca de 10 vezes maior do que o resultante de ataques violentos motivados por homofobia.

Quando se torna crime a discriminação de um indivíduo por conta da sua identidade de gênero ou orientação sexual, tiramos um grupo enorme de pessoas de uma histórica situação de submissão e vulnerabilização imposta pela maioria da sociedade, e damos a elas condições de reivindicar sua cidadania, o que inclui tanto o direito à saúde quanto à segurança.

Torna-se possível, então, denunciar a LGBTfobia institucional da saúde brasileira que, por não valorizar as especificidades dos contextos de vida e as necessidades desses grupos, contribui com a propagação do HIV entre eles.

Em nenhum lugar do planeta a epidemia de HIV se disseminou entre os setores mais fortes da sociedade, mas sempre entre os subjugados. É fácil então concluir que empoderar os excluídos e trazer sua saúde para o centro da discussão e do planejamento, junto com a saúde do resto da população, é uma excelente maneira de protege-los.

A criminalização da homo e transfobia, no entanto, não será capaz de conter sozinha a epidemia de HIV. Mas é a derrubada de um dos maiores obstáculos que existiam para a elaboração de ações efetivas de saúde pública direcionadas para a população LGBT.

Na Parada do Orgulho LGBT desse ano comemore esse marco da nossa história do jeito que você preferir, pois agora toda a alegria é permitida no Brasil.

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São Paulo será destaque em documentário inglês sobre a luta contra o HIV http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/06/14/sao-paulo-sera-destaque-em-documentario-ingles-sobre-a-luta-contra-o-hiv/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/06/14/sao-paulo-sera-destaque-em-documentario-ingles-sobre-a-luta-contra-o-hiv/#respond Fri, 14 Jun 2019 07:00:36 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=485

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Na próxima semana, uma equipe de cinegrafistas ingleses desembarca em São Paulo para a gravação de um documentário que tem como tema as estratégias que diferentes cidades do mundo têm desenvolvido para enfrentar a epidemia de HIV/Aids.

Quem lidera a produção do documentário é a IAPAC – International Association of Providers of Aids Care – que poderia ser traduzido como a Associação Internacional de Cuidadores de Pacientes com Aids. Essa associação, desde a sua fundação em 1987, trabalha dando suporte a profissionais da saúde, órgãos governamentais e não-governamentais, corporações e associações comunitárias, na elaboração de ações de controle da epidemia de HIV/Aids em todo o mundo.

O documentário é uma das atividades do projeto Fast Track Cities (Cidades com Avanços Rápidos, numa tradução livre), um convênio que conta com a parceria da IAPAC, com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids (UNAIDS) e a Prefeitura de Paris.

O Fast Track Cities foi lançado no dia 1º de dezembro de 2014 na capital francesa, com o argumento de que as grandes cidades do mundo, por oferecerem oportunidades e tolerância, atraem grande número de pessoas vulnerabilizadas por conta de diferentes formas de exclusão social. Quem já não ouviu que é mais fácil, por exemplo, ser LGBT na capital do que no interior?

Uma vez que as doenças transmissíveis costumam se disseminar pelos círculos de exclusão, as grandes cidades se tornaram o principal cenário da epidemia de HIV/Aids no mundo, concentrando a maior parte dos seus casos. A cidade de São Paulo, por exemplo, sozinha registrou 7% dos novos casos da infecção do país inteiro no ano passado.

Segundo a iniciativa do Fast Track Cities, ao estimular ações com foco nessas cidades é possível impactar positivamente no controle efetivo da disseminação do vírus e na redução das mortes por Aids de todo o país. Foi criada então a Declaração de Paris, com uma série de compromissos que devem ser assumidos pelos prefeitos dessas cidades, com o objetivo de alcançar o fim da epidemia de HIV.

Entre as metas que as cidades devem atingir estão o aumento da cobertura de testagem e tratamento antirretroviral (Metas 90-90-90), a ampliação do acesso às estratégias de Prevenção Combinada, o combate ao estigma e discriminação, e a garantia do monitoramento de todos os avanços rumo a essas metas.

Desde 2014, muitas cidades se comprometeram com as metas do Fast Track Cities em todos os continentes do planeta. Mas, para o atual documentário, além de São Paulo, apenas outras 5 cidades foram escolhidas para serem retratadas: Londres (Inglaterra), Nairóbi (Quênia), Bangkok (Tailândia), Atlanta (EUA) e Kiev (Ucrânia).

São Paulo é uma Fast Track City desde o início do projeto. A Declaração de Paris foi assinada pelo então prefeito Fernando Haddad, e desde então tem servido de exemplo para o resto do Brasil no enfrentamento da epidemia de HIV/Aids. Para se ter uma ideia, somente na capital paulista foram prescritas mais de 13.000 Profilaxias Pós-Exposição (PEP) e mais de 4.000 Profilaxias Pré-Exposição (PrEP) contra o HIV em 2018.

O documentário da IAPAC, no entanto, não pretende mostrar São Paulo como um lugar perfeito no controle do HIV/Aids. Sabemos que ainda temos aqui uma longa caminhada pela frente, repleta de questões complexas para resolver, como é o caso da desigualdade racial, de gênero, a LGBTfobia e o acesso precário à saúde nas regiões periféricas da cidade.

Mas em São Paulo, com o engajamento governamental e da comunidade, o cenário está se transformando (e rapidamente) pra melhor, quando comparamos com as demais cidades do mundo. Não fique pra trás e faça parte dessa transformação.

 

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Ducha anal pode aumentar o risco de transmissão de HIV e outras ISTs http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/06/07/ducha-anal-pode-aumentar-o-risco-de-transmissao-de-hiv-e-outras-ists/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/06/07/ducha-anal-pode-aumentar-o-risco-de-transmissao-de-hiv-e-outras-ists/#respond Fri, 07 Jun 2019 07:00:48 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=478

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Entre os praticantes de sexo anal, em todo o mundo, o uso da ducha anal antes ou depois da relação sexual é uma prática bastante difundida. No Brasil, por exemplo, ela é reportada por 53% dos praticantes de sexo anal, segundo pesquisa recente. Entre os motivos para seu uso, seus praticantes citam a higiene durante o coito e a redução de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Mas será que o uso da ducha anal de fato diminui as chances da transmissão de ISTs?

Até hoje, as pesquisas científicas publicadas sobre o tema tinham resultados discrepantes. Enquanto uma parte desses trabalhos mostrou que o uso da ducha não interfere na transmissão de agentes microbianos por via sexual, os demais evidenciaram que a prática poderia tanto aumentar quanto diminuir o risco de isso ocorrer.

O único trabalho brasileiro a investigar isso é de 2017. Nele, 369 homens gays/bissexuais e mulheres transexuais foram avaliados e não foram encontradas maiores prevalências de HIV ou outras ISTs entre os adeptos da ducha anal.

Uma das possibilidades utilizadas para responder às perguntas científicas quando as diferentes pesquisas encontram resultados conflituosos é a elaboração de uma metanálise. Numa metanálise, ao invés de olharmos para os trabalhos e seus resultados individualmente, juntamos todos eles e analisamos como se fossem um único estudo, obtendo assim um número muito maior de participantes incluídos na análise e aumentando o poder de resposta da questão.

Nas últimas semanas, um grupo de pesquisadores publicou a primeira metanálise realizada até hoje sobre duchas anais. Na sua análise foram incluídos 20.398 participantes de 28 estudos e os resultados encontrados mostram que o uso de duchas anais está associado a maior prevalência tanto de HIV quanto das demais ISTs bacterianas e virais.

A chance de encontrar uma IST entre os praticantes da ducha anal foi mais do que 2 vezes maior do que entre os não praticantes, mesmo depois de retirada a influência de fatores de confusão, como por exemplo o número de parcerias sexuais.

Isso significa que o uso de duchas anais pode estar facilitando a transmissão desses agentes. Uma das hipóteses levantadas pelos autores é a de que a prática pode lesionar a mucosa retal, dependendo do líquido utilizado, predispondo com isso à entrada dos agentes causadores das ISTs. A outra é a de que os instrumentos utilizados na ducha poderiam estar contaminados e o seu compartilhamento proporcionaria a transmissão de ISTs aos seus usuários.

Se por um lado, de acordo com essa metanálise, as duchas anais começam a ser consideradas prejudiciais à saúde, já existem em andamento pesquisas que as utilizam como via de administração da PrEP. Para isso, soluções com antirretrovirais são utilizadas na ducha anal, recobrindo a mucosa com o medicamento protetor contra o HIV.

Os resultados desses estudos são ainda aguardados, mas o interesse da ciência e dos pesquisadores por práticas sexuais amplamente difundidas entre as populações mais vulnerabilizadas à epidemia de HIV e outras ISTs, sem que haja julgamento ou condenação das mesmas, é um caminho promissor para a obtenção de um controle definitivo da sua disseminação.

A questão das duchas anais ainda é um tema aberto e em investigação mas, enquanto mais estudos não são publicados, desde já uma boa recomendação é o não compartilhamento dos instrumentos utilizados na sua prática e manter sempre em dia a sua rotina de testagem para as ISTs.

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Beijo pode transmitir gonorreia? Estudo recente mostrou que sim http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/31/beijo-pode-transmitir-gonorreia-estudo-recente-mostrou-que-sim/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/31/beijo-pode-transmitir-gonorreia-estudo-recente-mostrou-que-sim/#respond Fri, 31 May 2019 07:00:30 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=473

O estudo foi feito com 60 casais de homens gays – Foto: iStock

A Neisseria gonorrhoeae é bactéria causadora da gonorreia, doença que normalmente cursa com uretrites, proctites ou infecções ginecológicas, podendo até levar à esterilidade quando não tratada.

Ela circula entre nós desde o princípio da humanidade e sua epidemia é ainda hoje um problema de saúde pública não resolvido e crescente, mas descobertas recentes têm mudado o entendimento dessa doença e as perspectivas de controle de sua epidemia.

Segundo o último relatório da Organização Mundial da Saúde sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), somente no último ano foram registrados em todo o mundo mais de 87 milhões de novos casos da infecção. Nos Estados Unidos, país que dispõe de um bom sistema de notificação de doenças, os casos de gonorreia aumentaram em 67% somente entre 2013 e 2017, e são hoje a segunda IST mais frequente, ficando atrás apenas das infecções por clamídia.

Apesar de o senso comum sempre achar que o crescimento das ISTs está acontecendo porque as pessoas não usam a camisinha nas suas relações sexuais com penetração, a ciência tem nos mostrado que a questão é mais complexa do que parece.

Primeiramente, já há vários anos foi demonstrado que uma pessoa pode em até 30% dos casos ser portadora da gonorreia sem apresentar qualquer sintoma, podendo mesmo assim transmití-la aos seus parceiros. Da mesma forma, infecções assintomáticas ocorrem, em diferentes proporções, com todas as ISTs, como clamídia, sífilis e HIV.

Sabendo disso, se formos tratar apenas as ISTs sintomáticas, estaremos deixando toda uma epidemia silenciosa sem tratamento acontecendo no “subterrâneo”. Foi por isso que pouco a pouco, se começou em todo mundo a recomendar às pessoas com vida sexual ativa o rastreamento periódico de ISTs mesmo que não apresentem sintomas para, assim, identificar e tratar os positivos, quebrando a cadeia de transmissão dessas bactérias.

Nesse rastreamento, a pesquisa da N. gonorrhoeae é feita principalmente em uretra uma vez que tradicionalmente esse era considerado o principal sítio fonte de novas infecções. Entretanto, há algumas semanas um estudo australiano publicado na revista científica Sexually Transmitted Infections revelou que talvez estejamos procurando a bactéria no local errado.

No estudo, 60 casais de homens gays em que pelo menos um havia sido diagnosticado com gonorreia foram investigados quanto à presença de gonorreia. A pesquisa foi feita, além da uretra, em garganta e ânus. Os achados mostraram que a garganta é o local em que mais frequentemente foi identificada a infecção assintomática por essa bactéria e, a partir daí, teria se transmitido para os diferentes sítios corporais dos seus parceiros.

Mesmo quando não havia bactéria encontrada na uretra, nos casais houve evidência de transmissão entre gargantas por meio do beijo e entre garganta e ânus por meio do sexo oro-anal e do uso da saliva para lubrificação da relação sexual. Todas essas situações em que o uso do preservativo não teria evitado a transmissão.

Os resultados encontrados, no entanto, não devem servir de argumento para restringir nem estigmatizar as práticas sexuais desenvolvidas pela população. Ao contrário, compreendendo melhor essas práticas e os mecanismos de transmissão da gonorreia, poderemos desenvolver novas estratégias de rastreamento e prevenção que de fato controlem sua disseminação.

Novas pesquisas nesse sentido já se encontram em andamento. Mas no Brasil, precisamos desde já começar a pensar na incorporação dessas descobertas nas nossas rotinas de rastreamento. Mantenha-se em dia com seus exames para ISTs. Assim você está cuidando da saúde de toda a sua comunidade.

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O segundo erro do governo Bolsonaro na luta contra o HIV http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/22/o-segundo-erro-do-governo-bolsonaro-na-luta-contra-o-hiv/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/22/o-segundo-erro-do-governo-bolsonaro-na-luta-contra-o-hiv/#respond Wed, 22 May 2019 18:04:46 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=469

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Na última sexta-feira foi publicada no Diário Oficial da União a nova organização dos departamentos e coordenações do Ministério da Saúde. Elas causaram ainda mais preocupação com os passos do atual governo na área da saúde entre todos aqueles que, de alguma forma, se relacionam com o tema HIV. E deveriam também preocupar toda a população brasileira.

As mudanças no Departamento de HIV/Aids são mais um dos erros que a gestão atual do Ministério da Saúde tem cometido desde a sua posse.

A partir de agora, o órgão responsável pelo enfrentamento da epidemia de HIV/Aids, desde a sua prevenção até o tratamento, foi reduzido de um departamento para uma coordenadoria. E passa então a dividir funções e orçamento com pastas de temas completamente desconectados. Um exemplo disso são as chamadas “Doenças em Eliminação” alocadas, na nova estrutura, sob o mesmo departamento que o HIV.

A quais doenças se refere o termo “em eliminação”, não é definido no texto, mas uma interpretação possível seriam as verminoses e doenças transmitidas pela falta de saneamento básico.

A eliminação real que vejo é a do protagonismo do Departamento de HIV/Aids, criado em 1986 e colecionador de prêmios, elogios e marcos na história da epidemia mundial de HIV, como o oferecimento gratuito do tratamento antirretroviral, PEP e PrEP.

Departamento esse que, antes de ser agora esvaziado, no ano de 2018 anunciou como resultado de suas ações a redução histórica de 15,8% em apenas 3 anos na mortalidade por Aids no Brasil.

Ao diminuir a importância da resposta brasileira à epidemia de HIV/Aids, o governo caminha na contramão das tendências mundiais e expõe o seu total desconhecimento sobre o assunto.

Isso fica ainda mais gritante se o argumento da nova organização for a economia de recursos, uma vez que a Aids é ainda uma das principais causas de mortes, todos os anos, entre adultos jovens, segundo o último relatório da Organização Pan-Americana de Saúde. Adultos estes que poderiam ter seguido suas vidas com saúde e produtivas para o país, se tivessem recebido a atenção necessária para a infecção por HIV.

O enfrentamento da epidemia de HIV é complexo e envolve mais do que ciência e financiamento. Ele requer comprometimento e sensibilidade na formulação das políticas públicas de saúde, levando em conta o impacto que têm todos os tipos de discriminação e exclusão social.

Aliás, as ferramentas técnicas para que mais ninguém se infecte ou morra por HIV já existem. E a persistência no registro desses números fala muito mais sobre o descaso dos governantes do que da falha da medicina.

Simplificar, reduzir e ignorar o HIV/Aids é um erro que pode devastar gerações. Não podemos tratar HIV como se fosse uma verminose. No Brasil, estávamos caminhando na direção certa. E precisamos voltar para lá antes que seja tarde.

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46% dos brasileiros não usam camisinha sempre em relações casuais http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/saiba-como-as-pessoas-realmente-usam-a-camisinha-nao-e-da-forma-indicada/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/saiba-como-as-pessoas-realmente-usam-a-camisinha-nao-e-da-forma-indicada/#respond Fri, 17 May 2019 07:00:56 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=462

Crédito: iStock

Por décadas a camisinha foi o principal pilar das campanhas de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) ao redor do mundo. Entretanto, apesar do seu uso ser bastante eficaz para manter alguém livre dessas infecções, isoladamente a camisinha não foi capaz até hoje de conter nenhuma dessas epidemias.

O motivo disso é simples: a camisinha só funciona para prevenção de ISTs se for usada sempre, de maneira correta e constante. E apenas parte da população consegue fazer isso.

Essa conclusão parece óbvia, porém, somente depois de 30 anos de uma epidemia sempre crescente de HIV, pudemos compreender que fazer o mundo inteiro usar o preservativo em todas as relações sexuais de suas vidas é uma utopia. Foi só então que começamos a desenvolver ferramentas adicionais de prevenção combinada, como o tratamento das pessoas que já vivem com HIV, a PrEP e a PEP.

Nessa coluna, a enorme maioria dos comentários deixados nos textos em que escrevo diz a mesma coisa. “É só usar camisinha”. Mas será que os leitores sabem como as pessoas andam usando a camisinha no mundo real? E mais do que isso, como esse uso variou nos últimos anos?

Aqui no Brasil, não há falta de informação sobre a camisinha. Num estudo brasileiro de 2017 que aplicou a 1.187 pessoas um questionário avaliando o conhecimento sobre prevenção do HIV, 99,4% dos entrevistados relataram reconhecer o uso consistente do preservativo como método preventivo eficaz. E mesmo assim, menos de 80% tinham intenção de usá-la.

Portanto, saber que a camisinha protege não é suficiente. É preciso usá-la.

O uso do preservativo tem sido avaliado periodicamente pelo Ministério da Saúde por meio das PCAPs (Pesquisas de Conhecimentos Atitudes e Práticas na População Brasileira). Na última PCAP, realizada em 2013, foram entrevistadas 12.000 pessoas de 15 a 64 anos de idade em todo país.

Dentre as várias perguntas realizadas, havia uma que questionava sobre o uso do preservativo em todas as relações sexuais com parcerias casuais nos 12 meses que antecederam o inquérito. Responderam afirmativamente apenas 54% dos respondentes.

Isso significa que apenas metade da população brasileira está conseguindo se proteger apenas com a camisinha.

Um estudo norte-americano publicado esse mês na revista científica Archives of Sexual Behavior tentou investigar ainda mais a fundo esse assunto e encontrar as tendências existentes no uso da camisinha. Jovens gays e bissexuais, durante a transição da adolescência para a vida adulta, foram acompanhados por alguns anos e entrevistados, em diferentes momentos da última década, na cidade de Chicago, nos Estados Unidos.

Um dos achados foi que, apesar das campanhas estimulando o uso de preservativos, entre os jovens que começaram a ser seguidos a partir de 2015, diferentemente dos acompanhados anteriormente, houve redução significativa na frequência do uso da camisinha com o avançar da idade.

A camisinha, portanto, tem um papel crucial na prevenção entre aqueles que se adaptam a ela. Seu uso deve continuar sendo estimulado amplamente, pois assim estaremos garantindo a prevenção de cerca de metade da população. Mas não se pode ignorar o fato de que, para uma parte considerável das pessoas, a camisinha não resolve o problema da prevenção.

Dizer “é só usar camisinha” ou analisar o seu uso pelo viés moralista é simplificar a situação sem enxergar sua real complexidade. Sempre que isso é feito, os resultados desejados deixam de ser atingidos. E, nas epidemias de HIV e ISTs, as questões costumam ser mais complexas do que parecem.

Somente com a compreensão do contexto sexual da vida de cada indivíduo e com autonomia para que ele possa encontrar os seus melhores métodos de prevenção, chegaremos um controle efetivo da disseminação do HIV e outras ISTs.

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As falhas da PrEP devem realmente nos preocupar? http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/as-falhas-da-prep-devem-realmente-nos-preocupar/ http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/as-falhas-da-prep-devem-realmente-nos-preocupar/#respond Fri, 10 May 2019 07:00:55 +0000 http://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/?p=456

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Essa semana aconteceu em São Paulo o XII Hepatoaids, um congresso paulistano de HIV e hepatites virais brilhantemente organizado pela equipe da UNIFESP. Tive o privilégio de participar da mesa que discutia as falhas da PrEP conhecidas até o momento, e sobre isso que vamos conversar aqui.

Hoje sabemos que a PrEP é uma das mais potentes ferramentas existentes de prevenção contra o HIV, quando usada com boa adesão. Apesar disso, é frequente a preocupação e o questionamento quanto aos riscos de ela falhar na sua missão. Mas será que as falhas da PrEP devem ser realmente uma preocupação?

Antes de mais nada, precisamos saber que o conceito de falha da PrEP deve ser compreendido de maneira ampla e abrangente, e não só como a falha no efeito protetor contra o HIV conferido pelos medicamentos antirretrovirais.

A definição mais moderna e aceita de falha da PrEP contempla qualquer falha que aconteça ao longo de todo o contínuo da atenção prestada ao usuário. Incluindo-se aí desde uma falha na tomada dos comprimidos até a falha do sistema de saúde em oferecer a estratégia para aqueles que se beneficiariam dela.

Dessa maneira, são também causas dessas falhas os profissionais da saúde que, por não gostarem ou concordarem com a implementação da PrEP, deixam de identificar nos seus pacientes a vulnerabilidade existente ao HIV e, portanto, de indicar a PrEP para eles.

As falhas de adesão aos comprimidos, as do sistema de saúde e as dos profissionais que nele trabalham, são seguramente as maiores causas de falhas de PrEP no Brasil. Entretanto, o que em geral preocupa a opinião pública desavisada é a baixíssima probabilidade do antirretroviral falhar na proteção contra o HIV.

Existem até hoje apenas 6 casos descritos na literatura científica mundial de falha exclusivamente da droga, com a infecção ocorrendo mesmo havendo boa adesão aos comprimidos. Nesses casos houve inclusive comprovação dessa adesão através da dosagem dos medicamentos no sangue ou no cabelo dos usuários.

Em praticamente todos eles o motivo dessas falhas biomédicas era a infecção por um vírus que já era resistente aos antirretrovirais utilizados na PrEP. E esse tipo de resistência tende a desaparecer no mundo com o uso de antirretrovirais cada vez melhores no tratamento das pessoas que vivem com HIV.

Somente seis casos de falha da droga em um universo de mais de 450.000 pessoas usando PrEP no mundo todo, segundo a última estimativa da ONG AVAC. Isso significa que a probabilidade de uma infecção por HIV acontecer por falha da droga num indivíduo bem aderente à PrEP é de cerca de 0,001%.

As falhas da PrEP devem, portanto, ser motivo de preocupação sim, mas não as falhas da droga.

Nossa atenção precisa estar voltada para as inadmissíveis falhas no acolhimento feito pelos profissionais da saúde e no acesso à essa estratégia de prevenção. O acesso à PrEP é um direito do cidadão. É parte do direito à saúde integral. E a falha da cidadania não pode continuar sendo a mais frequente e a que menos preocupa.

 

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