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Rico Vasconcelos

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A hora de se testar para o HIV é agora

Rico Vasconcelos

13/04/2018 04h00

onde fazer teste de HIV

Crédito: iStock

Na infectologia, temos uma frase que é bem conhecida: "Uma pessoa só pode transmitir uma doença que possui".

Começo então essa conversa perguntando: Será que uma pessoa só pode sofrer de uma doença que possui?

Não ria. Parece piada, mas o assunto é sério. Qualquer profissional da saúde que trabalha com HIV já presenciou uma situação com alguém angustiado somente com a possibilidade de ter o vírus. Os centros de testagem e aconselhamento (CTAs) são os palcos mais comuns dessa cena, onde os indivíduos chegam referindo os sintomas que encontraram no Google e com a certeza de que suas vidas estão prestes a acabar, caso o exame venha positivo. Lembro-me até de um rapaz que, aguardando o resultado do seu teste rápido, me perguntou chorando: "Por que isso se chama Teste Rápido se demora essa eternidade pra dar o resultado?". Para quem não sabe, os Testes Rápidos para HIV levam entre 15 e 30 minutos para ficar prontos. Mas será que o momento da testagem para o HIV precisa ser assim tão ruim?

A testagem para o HIV é um dos pontos mais importantes de todo o fluxograma de enfrentamento da epidemia. É um momento em que o indivíduo está com a sua atenção voltada para a existência desse vírus no mundo e isso é algo absolutamente necessário na vida de qualquer ser humano. Mas a testagem é também o ponto de partida para se determinar como será a vinculação dessa pessoa ao plano de cuidado da saúde que dispomos atualmente para o HIV.

Para aqueles que, na testagem, confirmarem o seu diagnóstico de infecção por HIV, será possível iniciar o acompanhamento multiprofissional e o tratamento antirretroviral, elementos fundamentais para a preservação da saúde e a garantia de que o vírus não atrapalhará a vida de ninguém. Por outro lado, para os que tiverem o resultado do teste negativo, este é um excelente momento para se encontrar, dentro da Prevenção Combinada, as melhores formas de se manter livre do vírus. Dessa maneira, realizar o teste para HIV é sempre a melhor opção, independente do seu resultado.

Sabemos muito bem hoje que, quando uma pessoa que vive com HIV faz o tratamento da maneira recomendada pelo médico infectologista, não existe multiplicação do vírus no seu corpo, e por isso não é possível encontrá-lo no seu sangue. E enquanto o indivíduo se mantiver assim, além de impedir a progressão da doença causada pelo HIV, não existe risco de transmissão do seu vírus por via sexual. Nem mesmo em relações sem preservativo.

Sendo assim, o pânico relacionado ao momento da testagem acaba existindo não por causa do HIV em si, mas pelo que esse vírus representa no imaginário sorofóbico das pessoas. Sorofobia é o termo que denomina o sentimento de medo e aversão ao HIV e às pessoas que vivem com o vírus. Ela não tem nenhum embasamento científico e é plantada pelo senso comum na cabeça das pessoas desde a década de 80.

É a sorofobia que faz uma pessoa sofrer com o HIV mesmo sem ter HIV. É a sorofobia que torna a espera pelo resultado do teste rápido eterna. E junto com ela, o estigma, a vergonha e o medo do julgamento por procurar um teste para uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) são alguns dos principais fatores que afastam as pessoas desse exame nos serviços tradicionais de testagem. Nesse contexto, todos os esforços para facilitar e ampliar a testagem para HIV são de extrema importância e considerados uma prioridade pela Organização Mundial da Saúde.

O autoteste para HIV é uma nova tecnologia de rastreamento dessa infecção em que, sem a necessidade de um profissional da saúde, o indivíduo a ser testado é quem realiza todos os passos do exame e interpreta o resultado. No local e momento que escolher. Isso tudo de maneira simples, mas sem perder qualidade, quando comparado com o exame tradicional. Ele já é usado nos EUA e em outros países, sempre com o objetivo de ampliar a cobertura da testagem.

No Brasil, autotestes para HIV podem ser encontrados à venda em farmácias ainda por um preço alto, mas já tiveram distribuição gratuita com boa aceitação comprovada num projeto realizado na cidade de Curitiba. E, a partir dessa semana, passam também a ser oferecidos gratuitamente na cidade de São Paulo, pelo projeto "A Hora é Agora – SP" no site www.ahoraeagora.org/sp. Trata-se de um projeto de pesquisa da Faculdade de Medicina da USP, que pretende avaliar qual a melhor logística de distribuição gratuita de autotestes entre populações mais vulneráveis ao HIV.

Cada indivíduo tem autonomia para encontrar as suas maneiras de se testar e de se prevenir contra o HIV e outras ISTs, basta deixar pra trás os preconceitos das décadas passadas e conhecer as estratégias e tecnologias que temos hoje disponíveis para isso.

Com autonomia e sem sorofobia é possível escolher não sofrer com o que não precisa.

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.