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Rico Vasconcelos

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Mais um caso de falha da PrEP é reportado. E não há motivo para pânico

Rico Vasconcelos

2002-11-20T18:04:00

02/11/2018 04h00

Crédito: iStock

No início de outubro, em São Francisco (EUA), durante o congresso anual da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, foi apresentado o caso de um rapaz de 21 anos de idade que foi infectado por HIV enquanto usava a Profilaxia Pré Exposição ao HIV (PrEP).

Calma, não é a primeira vez que isso acontece. Diferente do que pensam alguns entusiastas desavisados da PrEP, ela não é 100% eficaz na prevenção de uma infecção por HIV. Mas consegue reduzir muitíssimo a chance de isso acontecer.

Na verdade, inúmeros casos de infecção por HIV já aconteceram entre pessoas que usavam PrEP. Na grande maioria das vezes, isso acontecia porque os comprimidos da PrEP não estavam sendo tomados da maneira como haviam sido prescritos, ou seja, diariamente.

Costumo sempre dizer que, da mesma maneira que a camisinha, a PrEP só funciona se for usada corretamente. Cabe a cada pessoa do mundo descobrir quais as estratégias de prevenção que consegue usar.

Voltando ao caso relatado no mês passado, o que chamou a atenção da comunidade científica mundial foi que o rapaz tinha adesão perfeita aos comprimidos da PrEP. Caracterizando o que chamamos de falha da PrEP, o que é bem diferente de falha na adesão.

Contando com esse, já temos seis casos de falha da PrEP descritos, desde que que a estratégia começou a ser usada em 2012. Seis casos dentro de um universo de mais de 380.000 pessoas que usam a PrEP como prevenção do HIV em todo mundo, segundo levantamento recente da ONG norte-americana AVAC.

Portanto, se você deseja saber qual a chance de a PrEP falhar, quando se está tomando os comprimidos direitinho, basta dividir 6 por 380.000.

De fato, essa chance é muito pequena. Mas, cada vez que um novo caso de falha é reportado, é importante retomar a discussão de que a proteção conferida por essa estratégia mesmo não sendo de 100%, é muito próxima disso. E que, estar atento à tomada dos seus comprimidos e às consultas de seguimento da PrEP são o melhor jeito de se potencializar sua proteção contra o HIV.

Pensando que a PrEP tem sua principal indicação para pessoas que vivem situações com risco aumentado de se infectarem com o HIV, uma probabilidade baixa como a de uma falha da PrEP não elimina o propósito dessa estratégia de prevenção. Afinal, a chance de ocorrer uma falha da PrEP é muito menor que a chance de ocorrer uma infecção por HIV, entre aqueles que não utilizam nenhuma prevenção.

Pra quem não fez a conta acima, é bom saber que a chance da PrEP tomada com boa adesão falhar está bem próxima da chance de levar um raio na cabeça durante a vida.

Por isso, vale muito mais a pena se preocupar em tomar os comprimidos diariamente do que em evitar sair de casa em dias de chuva.

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.