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Série retrata sem sensacionalismo a vida de uma pessoa que vive com HIV

Rico Vasconcelos

05/07/2019 04h00

Jen Richards e Daniela Vega em cena de "Crônicas de San Francisco" | Divulgação/IMDb

As produções artísticas, como filmes, peças de teatro, novelas e séries de televisão, exercem um importante papel na formação do imaginário da população mundial sobre diversos assuntos. Muitas pessoas têm até mesmo seu primeiro contato com determinados temas através dessas obras e, assim, a maneira como eles são apresentados é decisiva na formação de suas opiniões e posicionamentos sobre aqueles assuntos.

Imaginem se em todos os filmes policiais, na cena de perseguição, o mocinho levasse um tiro do bandido e morresse tentando fazer o bem pro planeta? Se em todas as novelas os padres fossem pedófilos? Ou ainda, se em todas as séries de tribunal o juiz fosse corrupto e parcial? A opinião pública certamente seria formada de maneira equivocada sobre esses assuntos.

Ao longo da minha prática médica, eu pude perceber que, quando o assunto é infecção por HIV, frequentemente as pessoas usam como referência produções emblemáticas com esse tema. E o que me chama a atenção é o fato de serem quase sempre referências do período mais trágico da história dessa epidemia, quando não se tinham disponíveis os meios para tratar a infecção, o que fazia com que as histórias terminassem invariavelmente com sofrimento e morte.

A lista das referências campeãs de audiência é grande, mas cito como exemplo o premiado Filadélfia, de 1993. Nesse filme, Tom Hanks ganhou o Oscar de melhor ator protagonizando Andrew Beckett, um advogado gay que é demitido quando seus chefes descobrem que estava com Aids. O caso vai parar no tribunal e a sentença do juiz determina que Andrew receba uma indenização de 5 milhões de dólares. Mas o que todos lembram é que, mesmo tendo ganhado na justiça, no final do filme o personagem morre em decorrência da Aids.

Da década de 1990 pra cá, muita coisa mudou dentro do cuidado disponível para prevenção e tratamento do HIV, sendo possível hoje uma pessoa viver com HIV tendo saúde por toda a sua vida, sem nenhum risco de transmissão do seu vírus para suas parcerias. Entretanto, essa nova realidade é pouco representada nas produções midiáticas, e as referências utilizadas para essa infecção continuam sendo as de histórias catastróficas das décadas passadas.

Uma série lançada pelo Netflix na semana do orgulho LGBT chegou para mudar esse paradigma. Crônicas de San Francisco é a continuação de uma série que foi ao ar na televisão na década de 1990 e conta a história de uma comunidade que gira em torno de uma pensão administrada por uma mulher trans em San Francisco, nos EUA.

Nessa nova temporada, já nos minutos iniciais do primeiro episódio, vemos uma cena do sorridente e saudável galã da trama tomando seu comprimido do tratamento antirretroviral. No desenrolar da história, a série nos dá uma verdadeira aula de saúde sexual e prevenção do HIV baseada na autonomia de cada indivíduo. Ninguém sofre por conta do HIV e ele em momento nenhum é motivo de conflito no enredo.

Produções midiáticas como essa têm o enorme potencial de desconstrução dos já históricos estigma, sorofobia e preconceito que soterram a temática do HIV. E essa série faz isso de maneira leve, educativa, despretensiosa e isenta de julgamentos.

Não acho que as histórias vividas no período catastrófico da epidemia de HIV devam ser esquecidas ou escondidas. Ao contrário, cada morte por Aids deve ser lembrada e homenageada. Apenas não devem ser as únicas referências disponíveis.

Uma vez que as referências sobre HIV na mídia se tornam mais fiéis à realidade médica e científica atual, e deixam de buscar audiência por meio da tragédia, estamos dando um importante passo no enfrentamento dessa epidemia, pois podemos enfim construir um imaginário que de fato contribui informando o público sobre sua prevenção e tratamento.

Recomendo que assistam ao Filadélfia e às Crônicas de San Francisco. Nessa ordem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.

Rico Vasconcelos