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Por que alguém abandona a PrEP?

Rico Vasconcelos

02/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Quando uma pessoa começa a usar PrEP para se prevenir do HIV, não necessariamente continuará usando essa estratégia ao longo de sua vida. Uma vez que a PrEP, assim como a camisinha, depende de uma boa adesão para de fato proteger uma pessoa, o seu abandono tem sido motivo de preocupação entre os estudiosos da prevenção.

É verdade que quando alguém decide iniciar a PrEP como estratégia adicional de prevenção, não precisará necessariamente permanecer usando-a até o final da sua vida. Exatamente da mesma forma que uma mulher pode interromper o uso da pílula anticoncepcional, uma mudança no contexto de vida pode fazer com que deixe de haver indicação do uso da PrEP.

Um exemplo perfeito disso seria um indivíduo que consegue melhorar tanto a frequência do uso do preservativo nas suas relações sexuais que um dia chega à conclusão que não precisa mais da PrEP e a interrompe.

Entretanto, abandonar a PrEP num momento da vida em que ainda existe risco significativo de transmissão do HIV pode levar um indivíduo a se infectar com o vírus. Dessa forma, nos últimos anos muitos trabalhos têm procurado entender o que faz uma pessoa persistir em PrEP ao longo do tempo e quais são os fatores associados ao seu abandono.

No estudo australiano PrEPX, que deu PrEP para mais de 4.200 participantes com alto risco de infecção por HIV, foi possível entender melhor a questão do abandono porque muitos dos indivíduos que interromperam o seu uso continuaram em seguimento nas clínicas de saúde sexual.

Durante os quase 2 anos de acompanhamento do estudo, 25% dos participantes decidiram descontinuar a PrEP. A análise mostrou que tiveram significativamente mais chances de interromper a estratégia os participantes mais jovens, os usuários de drogas, os que relatavam uso consistente de preservativo e os que iniciaram PrEP por recomendação de um profissional da saúde e não por sua própria vontade.

Dos que descontinuaram a PrEP, 22% reiniciaram o seu uso antes do fim do estudo e os dados de seguimento mostraram que a incidência de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) se manteve estável após o abandono da PrEP, o que demonstra que algumas pessoas continuaram vivendo contextos de vulnerabilidade. Uma prova disso foram as 10 pessoas que se infectaram com HIV depois do término dos comprimidos. Não houve aumento das ISTs associado ao início da PrEP nem redução ao seu abandono.

Uma análise brasileira incluiu cerca de 6.000 usuários de PrEP oferecida pelo sistema público de saúde e encontrou 11% de abandono no primeiro ano de uso da estratégia. Da mesma forma que na Austrália, estiveram entre os fatores associados ao abandono a idade menor que 24 anos e o início de PrEP por recomendação do profissional da saúde.

A população mais jovem se torna um ponto crítico nesse cenário pois, não só concentra maior frequência de abandono de seguimento, mas também pior adesão aos comprimidos da PrEP e pouca procura pela estratégia. E isso num país que tem também nesse grupo o número de novos casos de HIV em franco crescimento na última década.

É importante pontuar que a baixa taxa de abandono da PrEP no Brasil está relacionada com o seu oferecimento gratuito no serviço público da saúde e que, em países aonde a PrEP é oferecida no serviço privado, como nos EUA, essa taxa chega próximo de 50% no primeiro ano de acompanhamento.

Esses dados nos mostram que a implementação da PrEP é um processo dinâmico e complexo, assim como a vida sexual da população. Tão importante quanto tê-la disponível e garantir sua ampla divulgação, é respeitar a autonomia dos indivíduos na escolha dos métodos de prevenção. Com atenção individualizada aos que sabidamente terão mais dificuldade na vinculação.

Essa é a melhor chance que tivemos até hoje para conter a epidemia de HIV, então se interesse pelo assunto. Pode ser que a PrEP seja uma boa ideia para você. E só a interrompa na hora certa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.

Rico Vasconcelos