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Entenda a importância e o resultado do seu exame de sífilis

Rico Vasconcelos

01/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Na última semana o Ministério da Saúde divulgou o Boletim Epidemiológico de Sífilis de 2019, que nos atualizou com os números mais recentes da epidemia da doença no Brasil. E os resultados apresentados não são muito bons.

Segundo o documento, no Brasil todas as formas de sífilis estão em ascensão desde o início da década, incluindo os casos entre homens e mulheres adultos, nas mulheres gestantes e em recém-nascidos.

Para se ter uma ideia da grandeza desse crescimento, entre 2010 e 2018, a taxa de detecção de novos casos de sífilis entre pessoas com mais de 13 anos de idade, aumentou em mais de 36 vezes, saltando de 2,1 para 75,8 em cada 100.000 habitantes. E, por enquanto, não parece haver nenhuma tendência de controle dessa curva.

Em 2017, o Ministério da Saúde reconheceu a existência de uma epidemia em curso no Brasil e lançou o Projeto de Resposta Rápida à Sífilis, que tem como objetivo a redução no país dos casos da doença e das suas complicações.

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada por uma bactéria chamada Treponema pallidum, que nem sempre tem sintomas, e que é curada em 100% das vezes em que é feito o diagnóstico e tratamento correto.

Por que então estamos vendo essa explosão nos casos de sífilis no Brasil? Os desavisados responderão que o motivo é o não uso da camisinha pela população, mas com um pouco de conhecimento conclui-se que a não testagem e o não tratamento dos casos de sífilis tem um impacto talvez até maior no crescimento dessa epidemia. Não é à toa que o Ministério adotou o slogan #TesteTrateCure para o projeto.

Se a testagem periódica para a sífilis é tão importante para o seu controle, saber interpretar o resultado do seu teste é da maior importância para que ninguém fique desesperado nem motivo.

A sorologia de sífilis pode ser feita com dois tipos de testes. Os testes Treponêmicos e os Não Treponêmicos. No primeiro episódio de sífilis, o teste Treponêmico se positivará e, mesmo depois do tratamento e da cura, permanecerá assim. O teste rápido para sífilis, amplamente usado na rede pública, é um exemplo desses testes.

O teste Não Treponêmico, por sua vez, tem como resultado um número, que diminui quando a sífilis é curada, podendo até mesmo negativar, e que aumenta quando ocorrem novos episódios da doença por reinfecção.

Não há, então, porque entrar em pânico se o seu teste rápido continua positivo depois do tratamento da sífilis. Assim como não se pode esquecer da doença apenas por já ter se infectado e tratado uma vez na vida.

Se as pessoas com vida sexual ativa pensassem abertamente nas ISTs e se tivessem uma rotina de testagem para a sífilis, mesmo sem ter qualquer sintoma, muito provavelmente o Boletim Epidemiológico teria nos trazido notícias melhores.

A sífilis é prova de que o fato de ter uma cura não faz com que uma infecção sexualmente transmissível seja uma questão já resolvida no mundo. Com um tratamento eficaz disponível desde a década de 1940, a sífilis tem em 2019 a sua maior epidemia de toda a história do Brasil.

Faça a sua parte. #TesteTrateCure

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.