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Bolsonaro esvazia o plano de controle de ISTs e o reduz ao uso de camisinha

Rico Vasconcelos

14/02/2020 04h00

iStock14

Com o Carnaval se aproximando, o Ministério da Saúde decidiu preparar uma campanha de prevenção contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) para veiculação nos grandes meios de comunicação. Num primeiro momento, a ideia até parecia boa. Afinal, temos no Brasil epidemias como as de sífilis e HIV ainda crescentes, e uma população bastante desinformada e preconceituosa sobre o assunto. Entretanto, quando vemos o resultado da campanha encomendada é fácil constatar que quando o assunto envolve sexualidade ou ISTs, o governo sempre se equivoca.

A nova campanha "Usar camisinha é uma responsa de todos" foi lançada no último sábado em cerimônia com a presença do ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta. Preocupada com o crescimento das ISTs entre a população mais jovem, a campanha até acerta ao tentar dialogar com esse grupo utilizando uma linguagem de rap e atores do estilo "Malhação", mas erra feio principalmente na escolha do conteúdo e na forma como a mensagem é passada.

Em clima de medo, com um texto duro, ameaçador e ao som de portas de cadeia se fechando, a campanha mais parece uma batida policial.

Assim como nas campanhas anteriores já elaboradas por essa gestão, as Diretrizes Nacionais de Prevenção Combinada são simplesmente ignoradas. Diretrizes essas que preveem também o plano de oferta pelo SUS do diagnóstico precoce e tratamento do HIV, das Profilaxias Pré e Pós-exposição (PrEP e PEP), da testagem periódica e tratamento das ISTs, e da vacinação para HPV e hepatite b.

Mas, com uma campanha assim, a gestão Bolsonaro invisibiliza qualquer outro componente da Prevenção Combinada que seja diferente do antiquado e ineficaz clichê "Use Camisinha", da mesma forma como invisibiliza a população LGBT, a mais afetada por essas epidemias e sem qualquer representação nas peças publicitárias.

Essa campanha foi lançada na mesma semana em que o presidente da República insinuou em uma fala que o tratamento das pessoas que vivem com HIV é uma despesa pesada para todo o Brasil, tentando ao mesmo tempo culpar esse grupo, já bastante estigmatizado, por algo que prejudica o país e voltar toda a população contra ele.

Assim como essa fala inadequada, a campanha de prevenção recém-lançada parece ser fundamentada em opiniões pessoais e não no conhecimento científico acumulado ao longo do tempo. Um país que tem como plano para a prevenção contra ISTs as ineficazes políticas públicas de promoção isolada da abstinência sexual e de uso de camisinha, ficou estacionado na década de 1980, sem ter aprendido absolutamente nada com as experiências que deram certo nos últimos 20 anos.

Não é preciso nem se aprofundar muito no que já foi estudado sobre controle de ISTs para perceber que os melhores resultados obtidos até hoje foram sempre fruto de ações e políticas públicas que contaram com a participação da sociedade civil afetada, promovendo disseminação de educação sexual isenta de julgamento ou medo, e garantindo as condições necessárias para que, com autonomia, cada indivíduo assuma o controle da sua vida sexual e encontre os meios de prevenção capazes de utilizar.

Apenas não pense que critico a campanha por ela promover o uso da camisinha. A minha insatisfação existe por ela desprezar mais uma vez a ciência que funciona – veja o exemplo da cidade de São Paulo – para falar somente da camisinha. Ainda mais da forma que fala, usando sempre o medo como apelo.

Não se convence um jovem a usar o preservativo colocando uma arma em sua cabeça nem classificando sua prazerosa vida sexual como "perigosa loteria". Mas fazer isso é muito mais fácil do que discutir saúde sexual de forma aberta no Brasil de hoje.

Perigoso mesmo são os rumos que as epidemias dessas ISTs podem tomar em um país que deixa a elaboração das políticas públicas nas mãos de quem não tem muito apreço à ciência, à tecnologia e aos direitos humanos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.

Rico Vasconcelos