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USP faz estudo para avaliar eficácia de profilaxia contra covid-19

Rico Vasconcelos

08/05/2020 04h00

iStock

Num momento em que o número de casos registrados de infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) em todo o mundo se aproxima de 4 milhões e com a baixa adesão às estratégias de prevenção comportamentais, como o isolamento social, mais do que nunca uma alternativa de prevenção biomédica que consiga reduzir o crescimento da pandemia de covid-19 é necessária.

Uma vacina seria de longe a melhor opção. Entretanto, por ora isso ainda é apenas uma esperança. Termos a tecnologia necessária para o seu desenvolvimento não é uma certeza de que teremos uma vacina boa. No caso do HIV, por exemplo, estamos há 40 anos nessa corrida acumulando tentativas fracassadas.

Por mais que existam diversas pesquisas científicas em andamento, a produção de uma vacina exige muitas etapas que não podem ser puladas se queremos garantir a eficácia protetora desejada e a segurança daqueles que serão vacinados.

Etapas como as fases de experimentação clínica e a produção de doses em larga escala para imunizar toda a população mundial não devem levar menos que 18 meses. Por esse motivo, a pesquisa de outras alternativas preventivas pode ser uma solução em curto prazo.

Profilaxia é o nome dado para qualquer intervenção médica que tem como objetivo diminuir a probabilidade de um desfecho de saúde ocorrer. Dois exemplos de profilaxias já bem familiarizadas são o uso de meias elásticas compressivas durante uma viagem longa para evitar tromboses venosas nas pernas, e o uso diário do ácido acetilsalicílico (AAS) em doses baixas para prevenir um infarto agudo do miocárdio.

Voltando ao HIV, na última década vimos uma verdadeira revolução na sua prevenção a partir do uso profilático de medicamentos antirretrovirais por indivíduos negativos para esse vírus, porém sob risco de se infectarem. O uso diário desses medicamentos é chamado de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), e o uso emergencial, depois de uma relação sexual sem preservativo, é conhecido como Profilaxia Pós-exposição (PEP). As duas profilaxias contra HIV já se encontram disponíveis pelo Sistema Único de Saúde brasileiro e estão mudando a trajetória do enfrentamento dessa epidemia no Brasil e no mundo.

Mas será que o uso diário de algum medicamento que tenha efeito contra o novo coronavírus poderia da mesma forma proteger uma pessoa dessa infecção? E no caso de uma infecção já instalada, será que protegeria contra o desenvolvimento de formas mais graves da covid-19?

Pensando nessa hipótese e baseado em resultados preliminares de alguns estudos, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) desenhou um estudo que irá acompanhar pessoas que já fazem o uso contínuo por algum motivo de medicações que apresentam efeito antiviral contra o SARS-CoV-2.

As medicações escolhidas para a pesquisa foram a já famosa hidroxicloroquina, usada no tratamento de lúpus eritematoso sistêmico, e os medicamentos antirretrovirais, usados tanto no tratamento das pessoas que vivem com HIV, quanto na sua prevenção (PrEP).

Desde o final de abril, os pacientes acompanhados no Hospital das Clínicas da FMUSP que fazem uso contínuo desses medicamentos estão sendo convidados a participar do estudo. Para se fazer a comparação, serão incluídos também, como controles, indivíduos que convivem de maneira próxima com essas pessoas, mas que não fazem uso dessas medicações.

Durante 4 meses todos serão acompanhados quanto ao surgimento de sintomas de covid-19 e à presença de anticorpos para o novo coronavírus. Se a incidência de infecção for menor entre os usuários de hidroxicloroquina ou de antirretrovirais, quando comparados com aqueles que não usam essas drogas, é possível que elas tenham funcionado como uma PrEP contra a covid-19.

"Nesse momento, é fundamental explorar estratégias para proteger as pessoas mais vulneráveis enquanto uma vacina eficaz não está disponível", afirma Vivian Avelino-Silva, pesquisadora principal do estudo.

Se você ou algum conhecido tem mais de 40 anos de idade, tem os critérios de inclusão citados acima, é acompanhado no Hospital das Clínicas da FMUSP e tem interesse em ajudar, entre em contato por meio do e-mail prepcoronavirus@gmail.com.

Imagino como seria bom se no final dessa pesquisa, em outubro, fosse demonstrado que a PrEP para HIV também protege contra o SARS-CoV-2. Com uma única ferramenta poderíamos controlar duas pandemias de uma vez.

Mas por enquanto isso é apenas uma esperança. Vamos deixar a ciência fazer o seu trabalho. Enquanto isso, se puder fique em casa, use máscaras e lave as mãos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.