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Cidade de São Paulo é pioneira e amplia testagem de gonorreia e clamídia

Rico Vasconcelos

14/08/2020 04h00

iStock

A partir do mês de agosto, ficará mais fácil para os usuários de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) na cidade de São Paulo fazer os exames periódicos de rastreamento de gonorreia e clamídia. A ação é um importante passo no controle da disseminação dessas infecções.

Gonorreia e clamídia são bactérias transmitidas muito facilmente entre as pessoas por via sexual, podendo causar comumente infecções em uretra ou reto, e infecções ginecológicas, podendo levar, em casos mais graves, à infertilidade.

A facilidade de sua transmissão fez com que elas se tornassem algumas das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais comuns em todo mundo, contando, junto com a sífilis e a tricomoníase, com mais de 1 milhão de novos casos globalmente todos os dias, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Outra característica que torna mais difícil o controle da disseminação das duas bactérias é o fato de que uma parcela considerável das pessoas que se infectam não apresenta nenhum sintoma, mas pode mesmo assim transmiti-las para suas parcerias.

Considerando tudo isso, a OMS passou a recomendar que fosse feito o rastreamento periódico das pessoas mais vulneráveis às ISTs em busca dos casos assintomáticos, com o objetivo de tratá-los para assim interromper a cadeia de transmissão.

Foi por esse motivo, inclusive, que começamos em 2016 a usar a terminologia infecções, e não mais doenças sexualmente transmissíveis, uma vez que o termo doença se refere apenas aos casos que apresentam sintomas, e que naturalmente já buscam atendimento médico para tratamento.

No Brasil, o rastreamento de ISTs assintomáticas passou a ser recomendado apenas no final de 2017, direcionado para os usuários de PrEP em acompanhamento pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Entretanto, por mais que o Ministério da Saúde tenha acertado nessa recomendação, já que indivíduos com indicação do uso de PrEP são, por definição, vulneráveis a ISTs, ele falhou na execução da medida.

Nos últimos três anos, a ampliação da rede de serviços que fazem o atendimento de PrEP no Brasil não foi acompanhada da expansão da rede de laboratórios que pudessem realizar os exames de rastreamento de gonorreia e clamídia. Dessa forma, apenas uma minoria das 21.642 pessoas que iniciaram o uso de PrEP pelo SUS teve acesso ao pacote completo de prevenção combinada às ISTs. Os poucos serviços que conseguiram oferecer todos os exames de rastreamento recomendados foram aqueles vinculados a hospitais universitários ou centros de pesquisa clínica.

A partir de dezembro de 2019, o Programa Municipal de ISTs e HIV/Aids de São Paulo passou a disponibilizar, como parte de um piloto, os exames de rastreamento de gonorreia e clamídia para os usuários de PrEP atendidos no Centro de Testagem e Aconselhamento de Pirituba.

Até julho de 2020, os dados compilados desse piloto mostraram que 19% dos testes realizados vieram positivos para no mínimo uma das duas bactérias. O resultado reforçou então a importância da rotina de rastreamento de assintomáticos e, a partir de agora, três novas unidades da rede municipal (SAE Ceci, SAE Fidélis Ribeiro e CTA Santo Amaro) vão disponibilizar esses exames para seus usuários, o que em breve se estenderá para todas as 25 unidades de PrEP do município.

Segundo o protocolo do Ministério da Saúde, os usuários de PrEP devem fazer o exame de gonorreia e clamídia em urina ou em secreção uretral no mínimo semestralmente. No entanto, há consenso entre pesquisadores da prevenção de ISTs de que para que rastrear em mais locais de possível infecção (reto e garganta, além da uretra) aumenta a capacidade de detecção de casos.

Uma pesquisa desenvolvida no início de 2020 pela Faculdade de Medicina da USP, realizada com os usuários de PrEP acompanhados no seu ambulatório do Hospital das Clínicas, demonstrou que 77% das infecções assintomáticas por gonorreia e clamídia deixariam de ser diagnosticadas caso fossem feitos exames apenas em urina. Assim, alinhada com as recomendações mais modernas, a atual expansão no rastreamento dessas ISTs no município de São Paulo será feita com pesquisa nos três sítios, e não só na urina.

Essa iniciativa de São Paulo é pioneira e muito importante, pois certamente irá contribuir com a geração de dados que facilitarão o convencimento e a adoção do rastreamento completo de ISTs nas demais localidades do país.

O Programa Municipal de ISTs e HIV/Aids de São Paulo mais uma vez se embasa em evidências científicas, e não em conceitos preconceituosos e equivocados, para enfrentar as epidemias de ISTs entre aqueles que são mais vulneráveis, trazendo com isso mais saúde sexual para toda a população.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.