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Rico Vasconcelos

Autoteste é um dos caminhos para se chegar o fim da epidemia de HIV

Rico Vasconcelos

28/08/2020 04h00

iStock

Na última semana, o departamento de saúde de Washington, nos Estados Unidos, divulgou um boletim epidemiológico de HIV/Aids, com os dados atualizados da infecção no município, e anunciou que a cidade está muito próxima do fim dessa epidemia.

O entusiasmo não é descabido. O número de novos casos registrados anualmente de infecções por HIV está despencando por lá nos últimos anos. Durante todo o ano de 2019, o município teve 282 novos casos diagnosticados, o que corresponde a uma queda de 79% em comparação com o ano de 2007. Nos próximos anos, a tendência desse número é de chegar a zero.

A fórmula para o sucesso é simples. Há décadas as autoridades de saúde pública de Washington implementam as estratégias que em ensaios clínicos se mostraram eficazes para a redução de incidência do HIV. Exemplos disso são o programa de distribuição de seringas descartáveis para usuários de drogas injetáveis, o uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para as populações vulneráveis e o tratamento universal para todas as pessoas que vivem com HIV para que, com a infecção controlada, deixem de transmitir seu vírus por via sexual.

No entanto, um componente da abordagem adotada em Washington para enfrentamento da epidemia de HIV merece destaque: a distribuição gratuita de autotestes de HIV.

Autoteste de HIV é um teste rápido para diagnóstico dessa infecção que tem todas as suas etapas, inclusive a interpretação do resultado, realizadas pelo próprio usuário, sem a necessidade de ir a um serviço de saúde, de um laboratório e nem de um profissional da saúde. E tudo isso sem perder a qualidade da testagem.

O uso dessa ferramenta de testagem é recomendado desde 2015 pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e tem como principal objetivo ampliar a cobertura da testagem de HIV entre grupos populacionais que inúmeros motivos, como medo, discriminação ou até incompatibilidade de horário de funcionamento dos serviços de saúde, não são testados para essa infecção.

Em Washington, foi implementado um sistema de solicitação de kits de autoteste de HIV por meio de um site, que envia os testes gratuitamente por correio para o endereço indicado, facilitando o acesso ao teste e mantendo a privacidade do usuário. 

Além de Washington, a distribuição dos autotestes de HIV tem inúmeros outros exemplos bem-sucedidos ao redor do mundo e é considerada fundamental para manter a testagem de HIV durante momentos de quarentena por conta da pandemia do novo coronavírus.

No Brasil, estima-se que existam 135 mil pessoas vivendo com HIV que ainda desconhecem seu diagnóstico por não terem ainda se testado. Por isso, além de liberar a venda de kits de autoteste em farmácias, o Ministério da Saúde iniciou um projeto de distribuição gratuita de autotestes de HIV para os usuários de PrEP acompanhados pelo Sistema Único de Saúde. O plano é que os kits sejam então repassados para seus amigos, parceiros e parceiras, fazendo com que o teste chegue às pessoas que não frequentam os serviços de saúde para realizar a testagem tradicional de HIV.

Para avaliar a melhor forma de distribuir kits de autotestes de HIV em São Paulo, foi desenvolvido pela Faculdade de Medicina da USP o projeto "A Hora é Agora", uma continuação de um projeto iniciado há alguns anos em Curitiba, no Paraná. Entre os seus resultados, apresentados em março de 2020 no congresso mundial de HIV, foi demonstrado que em São Paulo as pessoas que mais se interessam pelos autotestes de HIV são justamente aquelas que nunca haviam se testado na vida.

Conhecer o próprio status sorológico para a infecção por HIV é o começo de tudo, quando se trata de cuidado do HIV, e a distribuição de autotestes é uma maneira de estender a uma parcela cada vez maior da população os benefícios atualmente disponíveis para prevenção e tratamento desse vírus.

A cidade de Washington está nos mostrando que é possível vencer a epidemia de HIV. E temos aqui no Brasil todas as ferramentas que precisamos para seguir pelo mesmo caminho. Só precisamos divulgá-las para promover a ampliação de acesso para toda a população. E você pode ajudar nisso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.