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Rico Vasconcelos

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Quem está em PrEP não precisa usar PEP

Rico Vasconcelos

2028-09-20T18:04:00

28/09/2018 04h00

Crédito: iStock

Uma pergunta que sempre ouço dos meus pacientes é se, quando ocorre uma situação com risco de infecção por HIV, existe a necessidade de interromper a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para iniciar a Profilaxia Pós Exposição (PEP).

Essa dúvida em geral aparece num momento de desespero. Acompanhada da bastante frequente ansiedade relacionada à possibilidade de uma transmissão do vírus.

Agora, pensem. A PrEP é uma potente estratégia de prevenção contra o HIV. Ela atinge seu máximo benefício justamente quando indicada para as pessoas que não usam a camisinha em todas as suas relações sexuais e, por isso, estão vulneráveis a essa infecção. Por que então duvidar da sua proteção?

A PrEP é extremamente eficaz em evitar a infecção por HIV. Tão eficaz quanto a PEP. Assim, não faz sentido interromper uma estratégia para iniciar a outra. Cada uma delas é indicada para situações diferentes.

A PEP é uma estratégia de prevenção de emergência. Para aquela pessoa que vinha cuidando bem da sua prevenção, usando a camisinha, o Indetectável = Intransmissível e/ou o serosorting e, de repente, passa por uma situação que o coloca em risco para essa infecção. Exemplos disso são o rompimento do preservativo, uma relação extraconjugal, o não uso consciente da camisinha ou mesmo pelo consumo de álcool ou outras drogas. Situações pontuais de vulnerabilidade ao HIV.

Depois de uma situação como essas, existe uma janela de oportunidade de 72 horas para se iniciar a PEP que, se tomada corretamente por 28 dias, reduz o risco de transmissão do HIV a níveis insignificantes.

Agora pensem em um indivíduo que passa por situações como essas de maneira frequente. Esse é o candidato perfeito para o início da PrEP.

Percebam que existe o fluxo de migração do uso repetido da PEP para a PrEP, o que pode ser avaliado pelo profissional da saúde que realiza os atendimentos de emergência dessa pessoa. Mas não existe o fluxo contrário. Em nenhuma situação a PrEP deve ser interrompida para se iniciar a PEP.

A PrEP pode ser interrompida quando for constatada a mudança na vida sexual do indivíduo que passa a não viver mais situações de vulnerabilidade, como numa melhora no uso da camisinha. A partir da interrupção da PrEP, a PEP volta a ser uma possibilidade de prevenção caso haja uma nova emergência.

Existem inúmeras maneiras de se manter protegido do HIV. Sabendo que as melhores estratégias de prevenção são aquelas que o indivíduo escolhe usar, por compreender como funcionam e ser capaz de usá-las de maneira correta e constante, ninguém precisa ficar de fora da prevenção e da saúde. Nem desesperado.

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.