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Brasil retrocede mais uma vez na luta contra o HIV

Rico Vasconcelos

26/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Desde que comecei a estudar e trabalhar com infecções sexualmente transmissíveis (IST), uma das coisas que mais me impressionaram positivamente foram as conferências mundiais de HIV.

É transformador perceber que os obstáculos existentes no enfrentamento dessa epidemia são muito parecidos não importando em que parte do mundo você esteja. E mais do que isso, é inspirador aprender com os bons exemplos de lugares que conseguiram superá-los.

Durante toda essa semana aconteceu aqui na Cidade do México a Conferência da International Aids Society (Sociedade Internacional da Aids), evento que reúne os maiores especialistas em HIV e representantes da sociedade civil do mundo inteiro.

No entanto, se por um lado as notícias do congresso aqui no México foram ótimas, no Brasil testemunhamos nos últimos dias mais um passo do processo de desmonte do mundialmente elogiado Programa Brasileiro de HIV/Aids.

Durante a conferência, as boas notícias anunciadas foram muitas e pretendo aqui comentar apenas alguns destaques.

Um dos pontos altos na temática da prevenção foi a apresentação dos detalhes do estudo Mosaico da promissora vacina contra o HIV, que se iniciará em setembro/2019 nos EUA.

Foram também apresentados novos dados demonstrando progresso no desenvolvimento de opções inovadoras de PrEP, utilizando novas drogas e diferentes vias de administração. Exemplos disso são os anéis vaginais impregnados com Dapivirina trocados mensalmente e do implante subcutâneo com o medicamento experimental MK-8591, que poderá ser trocado anualmente, da mesma forma que os implantes com anticoncepcionais.

Houve também a recomendação da Organização Mundial da Saúde do uso da PrEP sob demanda para indivíduos com menor frequência de relações sexuais, o que esperamos que em breve seja também ser iniciada no Brasil.

Quanto às novidades de tratamento de pessoas que vivem com HIV, foram apresentadas novas evidências que reforçam o sucesso do início da terapia antirretroviral com menos drogas, assim como na simplificação dos esquemas já iniciados.

Foram também demonstrados dados de manutenção da eficácia do tratamento, em casos selecionados, com comprimidos tomados menos que 7 dias por semana, por exemplo "folgando nos finais de semana".

Dois aguardados estudos apresentados essa semana demonstraram segurança no uso do antirretroviral Dolutegravir em mulheres gestantes, havendo com baixo risco dele causar problemas para o feto.

E enfim, praticamente todas as sessões do congresso pontuaram a importância do envolvimento da comunidade na elaboração das ações de enfrentamento da epidemia de HIV/Aids, e o poder da comunicação individualizada e direcionada para os grupos populacionais mais vulnerabilizados a essa epidemia, para se obter melhores resultados. Levando sempre em conta as questões de saúde sexual, reprodutiva e de qualidade de vida.

Enquanto isso, no Brasil, o Ministério da Saúde anunciou, sem qualquer justificativa e na contramão das recomendações mundiais, o encerramento de todas as atividades de comunicação em redes sociais do Programa Brasileiro de HIV e IST.

Com isso, o Brasil abandona algumas das estratégias de controle do HIV listadas como as mais eficazes aqui na Conferência Mundial, principalmente entre os mais jovens, grupo onde os novos casos da infecção crescem com maior velocidade.

Assim, infelizmente apesar de aqui na conferência vermos que a ciência está encontrando bons meios para resolver a epidemia de HIV/Aids, no Brasil estamos ignorando esses dados na elaboração das políticas públicas de saúde.

Cada vez mais então teremos que utilizar as redes alternativas e não governamentais para manter viva e atualizada a comunicação sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. Recomendo, portanto, que todos se interessem pelo assunto pois ele tem impacto direto na vida de todos os brasileiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.

Rico Vasconcelos