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Rico Vasconcelos

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Quantas pessoas precisam estar usando PrEP para acabarmos com o HIV?

Rico Vasconcelos

06/09/2019 04h00

Crédito: iStock

Os desafios na história da epidemia de HIV mudaram com o passar do tempo. Há 20 anos, por exemplo, estávamos desesperados à procura de uma maneira eficaz e segura para tratar as pessoas que viviam com esse vírus. Já agora, grande emprenho tem sido feito no sentido de conseguir reduzir o número de novos casos da infecção e parar o crescimento da epidemia.

De acordo com as metas do Programa Conjunto da ONU sobre HIV/Aids (UNAIDS), no ano de 2020 precisaríamos atingir a marca de apenas 500.000 novos casos de infecção por HIV em todo mundo para que a epidemia fosse considerada controlada em 2030. Ainda estamos longe disso, no relatório publicado no final de 2018, o UNAIDS ainda registrava incidência de 1.8 milhão de casos ao ano.

Nesse cenário, a ciência da prevenção, percebendo que apenas recomendando o uso do preservativo não ia atingir suas metas, começou a associar diferentes estratégias de prevenção dentro do conceito da Prevenção Combinada.

A Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), que consiste no uso de medicamentos antirretrovirais por pessoas soronegativas com o objetivo de protege-las dessa infecção, se mostrou uma estratégia extremamente potente de prevenção e com um bom perfil de efeitos colaterais nos diversos estudos realizados ao longo da última década. Por isso passou a ser recomendada pela Organização Mundial da Saúde a partir de 2015 para pessoas que só com a camisinha estavam vulneráveis a essa infecção.

Mas quantas são as pessoas com indicação de uso de PrEP no mundo? Quantas precisariam estar em PrEP para que de fato conseguíssemos atingir o controle da epidemia de HIV?

Pra começar a responder essa pergunta precisamos primeiro entender que essa resposta varia de uma região do mundo para outra. Afinal, essa epidemia tem características e dinâmicas muito diferentes a depender do país em questão.

Nos Estados Unidos, onde a epidemia de HIV tem aspectos bastante parecidos com a brasileira, já foi feito esse cálculo. Em trabalho publicado em 2018, foi feita uma análise de perfil de vulnerabilidade populacional ao vírus e demonstrado que em média 1 a cada 4 homens gays ou bissexuais, 1 a cada 5 usuários de drogas injetáveis e 1 a cada 200 adultos heterossexuais estão em risco de se infectarem, e por isso se beneficiariam do uso de PrEP.

No Brasil, nenhum estudo até agora procurou determinar esse número. Mas podemos, apenas para fins de exercício de estimativa, aplicar o cálculo americano aqui para os homens gays e bissexuais, um dos grupos prioritários para uso de PrEP, segundo o protocolo do Ministério da Saúde brasileiro.

O tamanho exato do grupo de homens gays e bissexuais no Brasil é desconhecido, mas é possível estima-lo também. Sabemos que no Censo de 2010 tivemos 93.406.990 homens registrados. Segundo pesquisa de 2016 do Ministério da Saúde, que entrevistou 12.000 pessoas, 86,6% dos homens tinham vida sexual ativa no ano anterior à pesquisa e 7,9% deles relataram sexo com outros homens. Assim, no Brasil devemos ter cerca de 6.390.345 homens gays e bissexuais com vida sexual ativa. Aplicando sobre eles o cálculo americano, cerca de 1,5 milhão desses homens se beneficiariam do uso de PrEP.

Segundo último levantamento do Ministério da Saúde, temos pouco mais de 13.000 usando PrEP gratuitamente no país inteiro, sendo que 77% deles são homens gays e bissexuais. Esse é sem dúvida um número muito menor do que o ideal, evidenciando que existe ainda uma parcela grande dessa população desassistida, mas já é um começo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a incidência de HIV só começou a cair nos estados com maior expansão da PrEP quando 250.000 pessoas estavam usando a estratégia no país. Mas é importante lembrar que lá não existe distribuição gratuita como política pública de saúde e quem deseja iniciar o uso de PrEP precisa quase sempre pagar (e caro) por isso.

Nunca tivemos na história uma oportunidade tão boa para controlar a epidemia de HIV como a atual, porém o acesso desigual à saúde, problema crônico no Brasil, é um importante obstáculo para o sucesso. Ajude nesse processo se interessando, falando sobre e divulgando a Prevenção Combinada. Pode ser que você ou seus amigos sejam um dos que se beneficiaria com o uso dela.

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.