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Por que é tão difícil aceitar que uma pessoa que vive com HIV pode transar

Rico Vasconcelos

17/01/2020 04h00

iStock

Vai completar 10 anos que a comunidade científica internacional teve acesso aos resultados do primeiro grande estudo que se propôs a avaliar o impacto do tratamento das pessoas que viviam com HIV na transmissão sexual desse vírus.

Naquele ano, o estudo HPTN 052 demonstrou que, depois de acompanhar pouco mais de 1.700 casais sorodiferentes por cerca de 5 anos, enquanto o indivíduo que vivia com HIV se manteve sob tratamento antirretroviral com a carga viral indetectável no sangue, não ocorreu nem ao menos um único caso de transmissão do vírus para a sua parceria soronegativa.

Esse foi apenas o primeiro de uma série de outros estudos, todos eles com o mesmo resultado. Com isso, depois do monitoramento de mais de 100 mil relações sexuais sem preservativo entre casais sorodiferentes indetectáveis, acumulou-se evidência científica robusta o suficiente para podermos afirmar que uma pessoa Indetectável é realmente Intransmissível, conceito que ficou conhecido como I = I.

Entretanto, quando se trata de um assunto estigmatizado como esse, para alguns profissionais da saúde a evidência científica é menos importante que a sua própria opinião, o que infelizmente é com frequência equivocada e sorofóbica.

De fato, já é bem conhecido que as pessoas têm padrões diferentes de aceitação para aquilo que é novidade. Enquanto tem gente que quer sempre experimentar o telefone celular mais moderno, existem aqueles outros que estão muito bem com o aparelho mais antigo, que nem acesso à internet tem.

A questão aqui é que usar esse ou aquele celular só interfere na sua própria vida. E no caso de um profissional da saúde, o aconselhamento oferecido e as condutas tomadas na prática clínica influenciam diretamente a vida dos seus pacientes, podendo em alguns casos causar sérios prejuízos e danos psicossociais.

Quer um exemplo? Imagine um casal heterossexual sorodiferente, em que a pessoa que vive com HIV está tomando seus remédios e tem a carga viral indetectável. Agora pense que os dois resolveram ter um filho. A depender da especialidade do médico que procurarem para o aconselhamento de saúde sexual e reprodutiva, há grandes chances de saírem com um encaminhamento para um serviço de reprodução assistida ou de inseminação artificial para evitar a transmissão viral, quando na verdade poderiam engravidar da maneira tradicional.

A hipótese de que médicos de diferentes especialidades têm conhecimento heterogêneo sobre o conceito de I = I, e de que se apropriam de maneira discrepante dele para tomar suas condutas, motivou a realização de uma pesquisa com profissionais do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.

Um questionário com perguntas tanto objetivas sobre o tema quanto baseadas em casos clínicos fictícios de casais sorodiferentes, está sendo aplicado para médicos clínicos gerais, médicos de família, infectologistas, ginecologistas e urologistas em diferentes momentos de suas carreiras.

Os pesquisadores acreditam que os ginecologistas e urologistas, profissionais que de maneira mais próxima lidam com questões sexuais das pessoas, serão os que menos vão dominar o que há de mais moderno na prevenção do HIV.

O resultado desse estudo será importante pois poderá ajudar na melhora da educação médica oferecida para os profissionais ainda em fase de formação, em especial para os que vão atuar no cuidado de pessoas que vivem com HIV e com saúde sexual e reprodutiva.

Em relação à prevenção da transmissão do HIV, portanto, não há nada de errado com o sexo sem preservativo entre casais sorodiferentes quando a carga viral está indetectável.

Essa informação precisa ser conhecida e difundida por todos os profissionais da saúde e ser repetida sempre que possível, devido ao seu potente efeito na redução de estigma e na motivação à boa adesão ao tratamento do HIV.

Saber que o Indetectável é Intransmissível é um direito de todas as pessoas que vivem com HIV no mundo e os profissionais da saúde que atendem essas pessoas são os principais responsáveis pela garantia desse direito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.

Rico Vasconcelos