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Casos de HIV caem 71% entre gays do Reino Unido. O mesmo ocorre no Brasil?

Rico Vasconcelos

24/01/2020 04h00

iStock

Nos últimos anos, o mundo está vivendo uma verdadeira revolução na prevenção do HIV.

Os métodos disponíveis para se evitar essa infecção deixaram de se restringir à camisinha e passaram a se multiplicar dentro da Prevenção Combinada. Com ela, finalmente entendemos que dar autonomia para cada indivíduo escolher os métodos de prevenção que consegue usar é o que mais funcionou até hoje no controle da epidemia de HIV.

É isso que tem sido demonstrado nas diferentes partes do mundo a partir do início do uso da PrEP, PEP, testagem rotineira para HIV e tratamento de todos os positivos. Agora chegou a vez do Reino Unido.

Na semana passada, foi publicado o Boletim Epidemiológico britânico de HIV e os resultados são realmente impressionantes. Entre os anos de 2012 e 2018, por exemplo, o número de novos casos de infecção por HIV por ano caiu 71% entre homens gays e bissexuais, grupo que historicamente é um dos mais afetados pela epidemia. A queda é ainda maior na região de Londres, onde existe a maior cobertura de PrEP.

Na população heterossexual, minoria dos usuários de PrEP, os novos casos de HIV caíram pela metade na última década, e estima-se que na população geral o número de pessoas vivendo com o vírus, mas que ainda não foram diagnosticadas, diminuiu também pela metade nos últimos 4 anos.

Animadas com esses números, as autoridades de saúde britânicas já falam em eliminação da epidemia de HIV até 2030, mas para isso calculam que 25% da população sob alto risco de infecção por esse vírus precisam estar em PrEP.

Num estudo publicado agora no final de 2019, pesquisadores ingleses demonstraram matematicamente que, caso esses 25% sejam de fato alcançados, a epidemia de hepatite C será também eliminada no Reino Unido. Isso porque o acompanhamento da PrEP prevê a testagem periódica dessa e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), proporcionando diagnósticos e tratamentos precoces com a cura e a interrupção da cadeia de transmissão da IST na comunidade.

Em outro trabalho, publicado em 2017, pesquisadores americanos conseguiram demonstrar também que a ampliação da cobertura de PrEP pode causar a redução de mais de 40% na incidência de clamídia e gonorreia em 10 anos. Mesmo que ela provoque desinibição sexual e aumento das relações sem camisinha. Mas isso só ocorre se o rastreamento dessas bactérias e tratamento de indivíduos com resultados positivos – mesmo quando assintomáticos – for feito adequadamente.

Pensando agora no Brasil, chegamos ao ponto crítico dessa discussão. Em primeiro lugar, ainda que já tenhamos aqui também tendências semelhantes à do Reino Unido, como na cidade de São Paulo que reduziu a incidência de HIV em quase 20% em apenas 1 ano após a implementação da PrEP, no país como um todo o acesso a essa tecnologia está muito abaixo do ideal.

Depois, entre aqueles que iniciaram a PrEP pelo SUS, o rastreamento de clamídia e gonorreia não está sendo realizado, pois esse exame não está disponível na rede pública.

Se nada mudar, então, esperamos para a próxima década epidemias ainda crescentes de HIV e outras ISTs no Brasil. Não porque não sabemos como controlá-las, mas por não estarmos colocando em prática o conhecimento científico acumulado de prevenção.

Entretanto, com a ampliação do acesso à PrEP e ao rastreamento das ISTs, principalmente para as populações mais vulneráveis, poderemos sim mudar essa história e colocar o Brasil na mesma rota que o Reino Unido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.

Rico Vasconcelos