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Somente com intervenções biomédicas e comportamentais vencemos as epidemias

Rico Vasconcelos

24/04/2020 04h00

iStock

Quando uma nova doença infectocontagiosa começa a se espalhar em uma localidade, especialistas e autoridades de saúde pública têm pela frente uma lista de tarefas para resolver. A sequência é simples: é preciso identificar as pessoas com a doença (vigilância epidemiológica), evitar a sua transmissão para novas pessoas (prevenção) e ajudar as já infectadas a não terem problemas de saúde causados por essa infecção (tratamento). Quando as três tarefas forem resolvidas ao mesmo tempo, podemos dizer que a epidemia enfim foi vencida.

A sequência é simples, mas a sua execução pode ser bem complicada. Usando a prevenção como exemplo, quando a via de transmissão de uma infecção é compreendida, já podemos começar a desenvolver formas de prevenção. No entanto, em um primeiro momento, ainda sem nenhuma tecnologia envolvida, a única intervenção preventiva possível é a de evitar as situações em que haja risco de transmissão desse vírus ou bactéria.

Essas são as chamadas estratégias comportamentais de prevenção. Por meio da disseminação de informações sobre uma doença em questão, elas propõem a mudança dos hábitos e comportamentos que tornam os indivíduos mais vulneráveis a essa infecção e, assim, evitam que eles se infectem e adoeçam.

Essas medidas em geral são mais fáceis de serem tomadas pelas autoridades de saúde do que de serem cumpridas pela população. Ainda que sejam informadas dos motivos dessas determinações, as pessoas são livres, têm opinião e vontade própria. Se não quiserem ou mesmo se não puderem adotar as mudanças de comportamento propostas, a abordagem de prevenção não atingirá seus objetivos.

É exatamente isso que colecionamos na história do enfrentamento de epidemias no Brasil. Sempre que a prevenção se baseou apenas em intervenções comportamentais, a incidência dessas infecções simplesmente não se reduziu de forma satisfatória.

Não conseguimos, por exemplo, eliminar a água parada nos recipientes esquecidos no quintal e nem fazer as pessoas usarem roupas com mangas compridas durante o dia. Como resultado, os casos de dengue seguem crescendo no país.

Nunca conseguimos fazer com que todos os brasileiros usassem do modo correto e constante a camisinha em suas relações sexuais (nem preciso falar sobre a proposta de redução do número de parcerias ou abstinência sexual), dessa forma, temos epidemias de HIV, sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis ainda aquecidas no Brasil.

Conforme o conhecimento e as pesquisas científicas sobre um determinado agente infeccioso vão se aprofundando, são desenvolvidas estratégias de prevenção cada vez mais sofisticadas, como por exemplo as que utilizam vacinas ou medicamentos de forma profilática. Essas são as chamadas estratégias biomédicas de prevenção.

Quando as estratégias de prevenção se multiplicam, associando medidas comportamentais com biomédicas, enfim torna-se possível contemplar os diferentes contextos de vida, inclusive os daqueles não vão aderir às mudanças de comportamento. Somente assim podemos então resolver a etapa da prevenção em uma epidemia.

É o que esperamos que aconteça, por exemplo, com a chegada de uma vacina contra a dengue desenvolvida pela parceria do Instituto Butantan com a Faculdade de Medicina da USP, e que tem apresentado resultados promissores em pesquisas recentes.

No caso do HIV, a introdução das Profilaxias Pré e Pós-Exposição (PrEP e PEP) e a disseminação do conceito Indetectável = Intransmissível, juntamente com as intervenções comportamentais de prevenção, o que chamamos de Prevenção Combinada, causaram uma verdadeira revolução no controle dessa epidemia na última década, e tem conseguido resultados inéditos nos lugares que optaram pela sua implementação.

Por fim, trazendo a discussão para o momento atual que o mundo está vivendo, para a pandemia do novo coronavírus não dispomos ainda de nenhuma intervenção de prevenção biomédica comprovadamente eficaz e segura.

Por outro lado, as intervenções comportamentais, como o isolamento social, a restrição da circulação de pessoas e o uso de máscaras, já se mostraram bastante efetivas em outros países para a redução do número de novos casos da doença.

Até que seja desenvolvida uma vacina ou profilaxia, não temos outra alternativa a não ser tentar usar as ferramentas que já temos disponíveis. Existem muitas pesquisas em andamento nesse campo da prevenção da COVID-19, só precisamos de um pouco de tempo e paciência.

Enquanto isso, se puder, fique em casa.

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.

Rico Vasconcelos