PUBLICIDADE

Topo

PrEP injetável de longa duração é eficaz e segura na prevenção do HIV

Rico Vasconcelos

22/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Quase no Réveillon de 2010, mais precisamente no dia 30 de dezembro, a humanidade começava a viver uma revolução. Naquele dia, foi publicado na prestigiada revista científica New England Journal of Medicine o iPrEX, o primeiro estudo que demonstrou que o uso contínuo de comprimidos com antirretrovirais por pessoas negativas para HIV era capaz de protegê-las de forma muito potente dessa infecção. Nascia ali a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) contra o HIV. E na última semana entramos em mais uma etapa dessa revolução.

A PrEP chegou a esse mundo em um momento muito oportuno, uma vez que as campanhas de prevenção de HIV baseadas no uso de preservativos já mostravam sinais de esgotamento, e ainda registrávamos em todo o mundo mais de 2 milhões de novos casos da infecção anualmente.

De 2010 até 2020 a PrEP ganhou o mundo. Recentemente, uma ONG internacional de HIV chamada AVAC, estimou que existam globalmente mais de 575 mil pessoas em uso de PrEP, distribuídos nos 78 países que já têm políticas de recomendação da profilaxia para pessoas vulneráveis.

Isso fez com que o número de novos casos de infecção por HIV, de maneira inédita, começasse a despencar nas localidades que estavam utilizando a PrEP.

No Brasil, por exemplo, isso foi evidente na cidade de São Paulo, aquela que conseguiu promover a maior expansão da PrEP que já é oferecida pelo SUS há 3 anos. Entre 2017 e 2018, a incidência de HIV caiu nesse município pela primeira vez desde a década de 1980, e a redução no número de novos casos foi de quase 20%.

No entanto, por mais que na última década tenhamos vivido a euforia da chegada da PrEP, os estudiosos da prevenção do HIV sabiam que a PrEP na forma de comprimidos não seria sozinha suficiente para controlar essa epidemia. Isso simplesmente porque ela depende de uma boa adesão aos comprimidos para que seus usuários estejam protegidos.

Exatamente da mesma forma que a camisinha, você só está protegido se usar direito. E não podemos supor que todas as pessoas do mundo vão querer ou conseguir usar camisinha ou comprimidos de forma correta. Aliás, esse foi o erro que cometemos em relação à camisinha nas primeiras três décadas de epidemia. 

Diversos estudos com a PrEP em comprimidos mostram, por exemplo, que pessoas mais jovens e transexuais, grupos que apresentam aumento na incidência de HIV na última década, são menos beneficiadas pelo uso da PrEP devido à má adesão aos comprimidos. 

Se a adesão à estratégia de prevenção é fundamental para que ela funcione plenamente, compreendemos que a melhor forma de prevenção para um indivíduo é aquela que ele escolhe usar, pois assim poderá utilizá-la de forma correta e constante. Esse é um dos princípios da chamada Prevenção Combinada.

Sabendo disso, os pesquisadores da prevenção do HIV trataram de buscar formas de diversificar as opções de prevenção. E na última semana mais uma modalidade de PrEP entrou nesse cardápio. A PrEP injetável de longa duração.

O estudo HPTN083 estava testando a nova forma de PrEP desde 2016 no Brasil e em mais seis países. Mais de 4.500 participantes negativos para HIV estavam recebendo injeções a cada dois meses e comprimidos diariamente. Metade deles recebia injeções verdadeiras e comprimidos de placebo, e o restante, injeções de placebo e comprimidos verdadeiros. Ninguém sabia quem estava tomando o que.

O estudo anunciou agora seus resultados parciais que apontam que tomar a injeção da nova PrEP a cada dois meses protege tão bem da infecção por HIV quanto tomar um comprimido diariamente da PrEP tradicional.

A notícia faz com que o mundo entre em um outro patamar de enfrentamento da epidemia, tornando cada vez mais fácil contemplar com prevenção eficaz todos os diferentes contextos de vida.

O estudo continuará por mais algum tempo acompanhando os participantes para consolidar melhor algumas informações sobre a PrEP injetável. Mas, a partir de agora, ninguém mais receberá placebo. Cada participante poderá escolher se deseja seguir usando as injeções ou os comprimidos de PrEP.

Até agora, o principal efeito colateral encontrado na nova PrEP injetável foi dor no local da injeção, reportada por 80% dos seus usuários, que em geral é bem tolerada.

Quase 10 anos depois do nascimento da PrEP, estamos prestes a testemunhar uma segunda revolução na prevenção do HIV. Uma prevenção que não julga, embasada no acolhimento das pessoas vulneráveis dentro dos seus contextos de vida. E que, tendo como aliada a tecnologia, é sem dúvida a melhor oportunidade que já tivemos até hoje para vencer a epidemia de HIV/Aids.

Precisamos comemorar como se fosse um Réveillon.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Médico Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É atualmente coordenador do SEAP HIV, o ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Sobre o blog

Com uma abordagem moderna e isenta de moralismo sobre HIV e ISTs, dois assuntos que tradicionalmente são soterrados por tabus e preconceitos, Rico Vasconcelos pretende discutir aqui, de maneira leve e acessível, o que há de mais atual e embasado cientificamente circulando pelo mundo. Afinal, saber o que realmente importa sobre esse tema é o que torna uma pessoa capaz de gerenciar sua própria vulnerabilidade ao longo da vida sexual. Podendo assim encontrar as melhores maneiras para manter qualidade no sexo, e minimizar os prejuízos físicos e psicológicos associados ao HIV e ISTs.